Cheiro, olhos, decote e Epocler

Ele estava sentado no pátio, numa das poucas cadeiras que sobraram daquelas mesas idênticas às mesinhas do Mc'Donalds. Com toda a sua brancura e seriedade, estava lá, lendo seu livro de contos de Ruben Fonseca. A cada página virada a mesma expressão, nenhum sorriso, nenhuma tristeza, nada. Na verdade foram poucas as vezes que o vira demonstrar alguma felicidade, sempre adorara esse jeito incomum dele, sincero.
Ela chega por trás, não há ninguém por perto, apenas um amigo que divide a mesma mesa com ele, afogado em folhas de fichário, borrachas, lapiseiras e calculadoras. Seu amigo também, embora a desordem de seu material denuncie o desespero com que ele tenta resolver suas questões de calibração de balanças e coisas do tipo, que me são completamente desconhecidas, permanece com uma fisionomia calma e serena.
O tempo que ficou ali observando foi suficiente para que ele virasse umas três páginas do seu livro e para que seu amigo arrumasse suas coisas na mochila, seguindo logo depois para aquela sala perto da escada lá de trás.Continuou mais alguns minutos ali e se questionou por que ele também não havia ido pra aula. Ela sabia.
Estava com uma calça clarinha, de comprimento até os tornozelos, seus chinelos verdes e aquela blusa lilás. Suas coisas estavam na sala, enquanto o professor dava uma monótona aula sobre cromatografia gasosa. Com a intuição de sempre, apenas saiu no decorrer da aula, com a certeza de que ele estaria ali. Podia contar apenas com sua intuição mesmo já que ele nunca habitava os mesmos cantos durante seu intervalo.
Muito calma, ela caminha por suas costas e chega até sua mesa. Nesse momento ele a olha, levanta a sua cabeça, marca a página do livro com o dedo indicador e descruza as pernas. Nenhuma reação de felicidade por vela ela pode observar. Olhou-o por uns 15 segundos, um olhar cheio de razão e sentimento, mas que também não era possível se perceber, apenas ela o sabia, o sentia. Então, olhou ao redor do pátio e deitou na mesa em que ele estava. Suas pernas semi dobradas, seus cabelos curtos espalhados sobre a mesa, aquele decote e suas orelhas furadas por três vezes cada... Tudo aquilo o fez relembrar e pensar no que ele havia feito, em como ele a magoara. Queria tocá-la, mas era covarde demais para tal gesto. Queria dizer que sentia sua falta, mas era frio demais para tais palavras. E ela continuava lá, deitada na mesa, com a respiração forte e os olhos fixos olhando para o alto. Ficaram assim por exatos 7 minutos.
Ele coloca o livro sobre a mesa, que já não é mais marcada por dedo algum. Tenta abrir sua mochila procurando por aquele chaveiro, uma miniatura de gaita. Lembre-se que seu irmão o quebrou enquanto tentava tira-lo da sua mochila no momento que ele subia as escadas, indo para seu quarto. Finalmente encontra o que procurava. Tira aquela nécessaire preta, misturada a tantas outras coisas excêntricas que carregava. Abre o zíper e lá estão, como sempre, todos aqueles remédios que o acompanham a qualquer lugar. Com as pontas dos dedos, que ele esconde por achar suas unhas vergonhosamente grandes, pega um pequeno frasco amarelo - Epocler - abre e toma em um só gole. Enquanto isso ela passa a mão em sua barriga e pensa nas três barras de chocolate que comera até aquele dia, quinta feira.
Inesperadamente começa a chover. A única atitude tomada por ele guardar seu livro na mochila. Os dois ficaram lá, ele sentado ainda da mesma maneira, ela deitada na mesa, apenas sentindo o silêncio.
Ela levanta seu corpo e fica sentada na mesa com o apoio dos seus braços. Ele olha seu decote e acha engraçado por seu sutiã sempre aparecer um pouco quando usa aquela blusa.Finalmente ela o olha, ele corresponde. E ficam assim, numa troca de olhares fixos e sem transparecer qualquer sentimento.
As gotas de chuva penetram seus longos cílios e ela derrama uma lágrima. Ele se levanta, encaixa seu corpo entre suas pernas que balançam no ar, coloca a mão no seu pescoço e tira os fios de cabelo molhados do seu rosto. Ela inclina-se em direção a ele, coloca a cabeça em seu ombro e cheira seu pescoço. Voltam à posição normal, mas não se olham nos olhos, como se após aquele contato o pensamento que ambos tiveram transparecesse a qualquer momento num olhar sentimental.
Ela vira o rosto e olha para o chão. Ele coloca a mochila nas costas e passa a mão em sua barriga de chopp e em seguida no rosto dela, fitando-o como se aquela fosse a ultima vez que se tocariam.
Ela decide voltar à sua aula de cromatografia e ele vai para casa. Cada um toma seu caminho sem dizer palavra alguma e enquanto ele cruza o portão, sentindo o alívio de seu fígado, pensa:
- Santo Deus, como ela fica linda quando olha assim, pra baixo.
Ela sobre as escadas em direção a sua sala, apoiando-se no corrimão por sentir aquela fulminante dor nos joelhos, e lembra:
- Oh céus, eu amo aquele maldito cheiro do sabonete de cachorro que ele usa...

29.6.06

10 Comments:

Anonymous Tati said...

Acabou de criar uma das minhas frases preferidas. Ah, e mais uma palavra pra ocupar meus pensamentos...

21:43  
Anonymous G said...

é...e a vida continua...

13:31  
Anonymous Anônimo said...

Pois é!!!
Um amor encubado!!!!
Essa parada de chocolate, foi aquele q eu te dei???

Bjão!!!!

13:53  
Anonymous fernando said...

Pois é!!!
Um amor encubado!!!!
Essa parada de chocolate, foi aquele q eu te dei???

Bjão!!!!

13:54  
Anonymous Jana said...

Oiê!
Você escreve bem. Gostei do texto.
Parece até uma página de diário, moça!

Beijokas ;)

17:40  
Anonymous Anônimo said...

Dei uma breve passada. Só foi possível ler a apresentação e algumas linhas dos posts.
A primeira impressão foi boa, foge da mesmice, do lugar comum dos blogs escritos pelas mocinhas da sua geração; tanto que prometo voltar outro dia com mais tempo para ler atentamente os posts.
Espero que você mantenha o ânimo de atualizá-lo sempre.
Abraços.
Prof. Carlos

22:00  
Anonymous Thiago said...

Acabou? Não tem mais?

12:57  
Anonymous Augusto said...

Esse texto foi bem real, nunca pensei q algo iria me parecer tão real de qualquer jeito levo ela comigo vai q um dia isso se realize? tenho até os personagens em mente, ta certo q algumas coisas ñ batem, mas mto estranho . . . RS bjus

22:58  
Anonymous Augusto said...

Esse texto foi bem real, nunca pensei q algo iria me parecer tão real de qualquer jeito levo ela comigo vai q um dia isso se realize? tenho até os personagens em mente, ta certo q algumas coisas ñ batem, mas mto estranho . . . RS bjus

22:58  
Anonymous Cristina Helena said...

sabonete de cachorro...hauhau..adorei...mt bom!!!
Não sabia que tinha uma prima tão talentosa!
Parabéns...
Vou continuar lendo aki...

22:59  

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